Na “Feira da 22”, passado e presente

Monumento ao Colono homenageia pioneiros que ajudaram a construir toda a Grande Dourados, terra em que se passa a história narrada por Mazé (Foto: André Bento)
Monumento ao Colono homenageia pioneiros que ajudaram a construir toda a Grande Dourados, terra em que se passa a história narrada por Mazé (Foto: André Bento)

Volto ao solo brasileiro nesta sexta e começo imediatamente os lançamentos da biografia do líder sindical de 1968, “José Ibrahim”, que comentei em edição anterior. Portanto, escrevo estas linhas antes da viagem, quinta-feira. Darei notícias depois dos lançamentos. Hoje, vou deixar vocês aqui com a continuação do conto “A Feira da 22”, tirado do “Lembranças da vila”, editado ano passado pela editora Letra Livre, de Campo Grande.

Continuação na edição anterior:

“Levamos duas malas cheias de produtos. Chegamos cedinho no lugar. No meio da floresta, um espaço de uma grande praça estava à disposição dos vendedores. Abrimos as malas de madeiras fabricadas por papai para a ocasião, tiramos as mercadorias e fomos colocando em cima de um tecido ali mesmo, no chão. A maioria dos comerciantes, que estava vindo pela primeira vez, também se instalara dessa forma. Poucos estavam preparados com bancas para expor as mercadorias.

Para mim era uma nova aventura que começava. Nasci no sítio, fui morar na cidade. Não conhecia nada além disso. Aquela era a oportunidade de ver novos lugares, novas pessoas... Além do mais viajaríamos de carro, também novidade! Mamãe costurou minha primeira calça comprida para subir na carroceria.

A partir daquele dia passei minhas semanas a pensar na viagem do domingo, na venda dos produtos secos e molhados às almas perdidas naquela mata, cansadas do trabalho duro. Passada a primeira feira, meu pai sabia melhor o que vender. Fabricou outras malas-caixotes de madeira para o transporte das mercadorias. Nós, crianças, deveríamos ajudá-lo a embalar muito bem os produtos para não quebrar. No sábado à tardezinha começávamos a preparação, com os artigos que podiam interessar: pilha, farolete, pó de arroz, espelho, chinelas, linhas de costurar e de bordar, corda, fumo.... Quantas coisas diferentes iam aos poucos, enroladas em jornal, entrando naquelas malas!

Nos primeiros tempos alugávamos um espaço no carro que transportava outros feirantes como nós. Depois, quando meu pai aprendeu a dirigir e comprou uma pick-up, nosso primeiro carro na cor azul, íamos em família e podíamos levar mais mercadorias. O lugar tinha ficado maior e nós com clientela feita.

Adorava fazer feira. Era uma saída da rotina diária que tínhamos. Levávamos nas marmitas de alumínio a comida que mamãe fazia para o almoço: arroz, feijão e frango com caldo. Na estrada parávamos somente para beber água e quando encontrávamos um carro quebrado, para ver se podíamos ajudar. Um dia o nosso também quebrou e ficamos lá até escurecer, tempo que levou para voltar o rapaz que foi à cidade buscar a peça defeituosa. Que aventura! A mata iluminada pelas estrelas! O vento soprava fazendo as árvores se exprimir num canto sonoro. Ouvia outros sons que deveriam ser de animais da floresta. Não muito longe da estrada onde estávamos, existia uma casa e moradores. Fomos lá pedir para puxar água fresca do poço para matar nossa sede. Que delícia tomar água puxada na hora quando o calor é forte!

Enquanto esperávamos a peça, meu pai nos contava histórias. Fiquei pensando no casal de americanos que naquele dia passando na região para estudos, tiraram fotos de nós. Eu fiquei registrada com minhas calças compridas, de um tecido de algodão verde, camisa bege, tudo feito por mamãe, e chinelas havaianas nos pés. Na minha frente um freguês de chapéu. Meu pai do outro lado olha o fotógrafo.

“Lembranças da vila”, pela “Letra Livre” https://letralivre.lojavirtualnuvem.com.br/literatura/lembrancas-da-vila-maze-torquato-chotil/

Bom final de semana!


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